Capitalismo de plataforma e a luta de classes
No ano de 2016, em Londres, estourou a primeira grande greve entre os entregadores de comida por aplicativo. Essa foi a primeira vez que pudemos observar a mobilização dos trabalhadores de plataformas, nos anos seguintes o número de greves aumentou ao redor do mundo – inclusive no Brasil, que a partir de julho de 2020 iniciou o movimento do Breque do Apps. Callum Cant trabalhou por oito meses como entregador da Deliveroo, a maior empresa de entregas do Reino Unido, para tentar descobrir como o movimento socialista poderia apoiar essas mobilizações e, desta experiência, nasceu a obra Delivery Fight! – A luta contra os patrões sem rosto, publicado esse ano pela editora Veneta.
Callum Cant – Em 2016, uma grande greve eclodiu entre os entregadores de comida, em Londres. Pela primeira vez, vimos centenas de pessoas que trabalhavam com plataformas de app iniciando uma ação coletiva para melhorar seus ganhos e condições.
Mas, na época, ninguém sabia que esse processo de mobilização era possível. Em geral, tanto analistas quanto ativistas pensavam que a precariedade e a atomização introduzidas pelo trabalho baseado em app praticamente inviabilizariam a ação coletiva. Não era esse o caso, é claro. Comecei a trabalhar como entregador para investigar o que Marx chamou de “morada oculta” do local de trabalho e descobrir, ao mesmo tempo, como essas greves eram organizadas e como os socialistas poderiam apoiar esse movimento.
Como entregador, que situações chamaram sua atenção?
Éramos pagos por entrega e, como nossa empresa, Deliveroo, estava contratando mais e mais trabalhadores, o número de nossas entregas por hora diminuiu – como diminuiu também nosso ganho. Foi então que resolvemos dar o troco.
Quais as maiores dificuldades que você enfrentou enquanto trabalhava como entregador?
O pouco que eu ganhava era um dos principais problemas. Muitas vezes, recebia bem menos que o salário mínimo obrigatório, mas isso não era ilegal porque, tecnicamente, minha classificação era de “autônomo”. Outro problema constante era a segurança. Os apps nos incentivam a dirigir o mais rápido possível, para ganhar mais. Isso significa que nós, os entregadores, nos colocamos em perigo apenas para levar uma pizza de um lado da cidade a outro. Os trabalhadores ficam com os riscos, os patrões com os lucros.
O “Breque dos Apps” foi um dos primeiros movimentos de entregadores no Brasil. Em sua opinião, qual é a contribuição das mobilizações locais para as mobilizações globais da classe trabalhadora?

Boa pergunta! A infraestrutura dos grupos de WhatsApp empenhados em organizar greves frequentemente faz com que os sindicatos fiquem para trás, de sorte que o espaço para a discussão coletiva de ideias políticas pode ser rapidamente erodido. Há, aqui, um sério desafio para o formato do sindicato. Quando combinada com a falta de um estatuto trabalhista legal, a comunicação entre um grande número de pessoas torna menos óbvio o papel do sindicato na luta. Não há resposta fácil para essa pergunta; e, se houver, sairá da experiência de luta, não do cérebro dos pesquisadores. Entretanto, com base no que aprendi, deposito muita esperança nesse tipo de desenvolvimento para a criação de uma densa teia de infraestruturas fortemente vinculadas ao movimento – de modo que os grevistas também participem de seminários de entregadores independentes, associações de locatários, estruturas de educação política etc.
No livro, você diz que as entregadoras acabam se isolando por serem minoria e sofrerem assédio ou com o machismo. Quais são, na organização dos trabalhadores, as consequências dessa exclusão das mulheres? O que se poderia fazer para incluí-las?
Os entregadores passaram de trabalhadores quase invisíveis na cidade, às vezes considerados apenas estudantes atrás de um dinheirinho, para “trabalhadores imprescindíveis”. Mas foi uma mudança apenas linguística. Murais declaravam “Amamos nossos trabalhadores imprescindíveis”, mas os patrões que realmente controlam os salários e as condições faziam muito pouco para mostrar esse amor. Algumas das maiores plataformas deixavam aos trabalhadores a tarefa de providenciar seu próprio equipamento de segurança, não permitiam isolamento e continuavam a explorar ao máximo seus funcionários. Infelizmente, os trabalhadores até agora só se mobilizaram em pequenos números contra esses abusos, mas um processo de organização paciente prossegue sob a superfície, liderado por meu próprio sindicato, os Trabalhadores Independentes da Grã-Bretanha.
O movimento surgiu das conexões entre os próprios trabalhadores, não há dúvida. E, até certo ponto, algumas das greves ocorreram sem nenhum vínculo com o movimento socialista.
Portanto, as greves começaram sem fortes vínculos com o movimento – mas agora, uma vez que a questão política principal é de classe, esses vínculos são sempre possíveis. A dimensão política da luta pode ser articulada por militantes da força de trabalho. Em última análise, os vínculos entre as greves e o partido devem ser criados pelo trabalho duro dos próprios organizadores, que podem conversar entre si e concluir que a luta para derrotar um patrão é a mesma para derrotar toda a classe patronal.
Como unir os trabalhadores e promover debates políticos em um ambiente que não tem assembleias, como os sindicatos?
As consequências imediatas são um notório enfraquecimento do movimento. Esse é um dos problemas mais sérios que os organizadores do setor enfrentam e para o qual não tenho respostas simples. Sabemos que as mulheres, no local de trabalho, sofrem não apenas exploração capitalista, mas também violência patriarcal e assédio. No setor de serviços, esse tipo de comportamento é o que não falta. Um primeiro passo seria facilitar às mulheres trabalhadoras erguerem a voz para explicar a experiência diferente que têm de nosso trabalho – e, depois, empreender uma ação coletiva em seu favor. Penso, com otimismo, que esse desenvolvimento é possível e estou convencido de que é necessário.
Laura Toyama e Samantha Prado fazem parte da equipe do Le Monde Diplomatique Brasil.
Fonte: https://diplomatique.org.br/capitalismo-de-plataforma-e-a-luta-de-classes/
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