Artistas ocupam a Funarte em São Paulo


“O dia 25 de julho de 2011 vai ficar marcado como um dia dedicado à cultura brasileira. O dia em que os trabalhadores da cultura perderam a paciência”, anunciou no microfone um dos integrantes da manifestação de cerca de 700 pessoas ligadas à cultura – entre atores, músicos, palhaços, diretores e artistas em geral – que depois de 6 assembleias durante o último mês, marcaram o ato e ocuparam a Funarte (Fundação Nacional de Artes), por volta das 17h na região central de São Paulo.

Influenciados e dando continuidade a movimentos de artistas como o Arte contra a Barbárie – mobilização de grupos teatrais de São Paulo surgido em 1999 que culminou na conquista da Lei de Fomento ao Teatro – os artistas se organizaram para tornar pública a indignação frente à falta de recursos públicos para a produção e o acesso da cultura no Brasil. “A arte é um elemento insubstituível para um país por registrar, difundir e refletir o imaginário de seu povo. Cultura é prioridade de Estado, por fundamentar o exercício crítico do ser humano na construção de uma sociedade mais justa”, afirma o manifesto do que se constituiu enquanto Movimento de Trabalhadores da Cultura (MTC).

A batalha contra a mercantilização e privatização da cultura e contra leis de renúncia fiscal como a Lei Rouanet – na qual a administração do dinheiro público destinado à produção cultural é transferida para a iniciativa privada – vem sendo travada por esses artistas há tempos, mas houve recentemente uma gota d’água que culminou na mobilização de hoje. Esse ano houve um corte de 2/3 da verba anual destinada à cultura: de 0,2% do orçamento geral da União (equivalente a R$2,2 bilhões), a receita foi reduzida para 0,06% (ou R$800 mil). Com falta de verba, foram suspensos todos os editais federais de incentivo à cultura.

Os trabalhadores da cultura reivindicam programas que estruturem uma política cultural contínua e independente estabelecidos em leis com orçamentos próprios. Como exemplo, utilizam o Prêmio do Teatro Brasileiro, modelo de lei proposto pela categoria há mais de dez anos que ainda não se concretizou. Exigem também Fundos de Cultura, também estabelecidos em lei, com regras e orçamentos próprios e executados por meio de editais, e demandam a imediata aprovação da PEC 236, que prevê a cultura como direito social, e da PEC 150, que garante o mínimo de 2% do PIB para a cultura. Além disso, exigem a imediata publicação dos editais federais que foram suspensos e a descongelamento da verba que se retirou da cultura recentemente.

“Por uma arte pública, exigimos o fim da política de privatizações e sucateamentos dos equipamentos culturais, o fim das leis de incentivo fiscal, o fim da burocratização dos espaços públicos e das contínuas repressões e proibições que os trabalhadores da cultura têm diariamente sofrido em sua luta pela sobrevivência”, ressalta o manifesto, que exige ainda representatividade dos artistas nos espaços de decisões sobre políticas culturais.

“Como podem explicar um corte desse num momento de superávit primário no país? Que tipo de povo se quer construir? Que não direito ao seu imaginário, à sua memória, a refletir criticamente sobre a sua própria história?”, questiona Fernanda Azevedo, da Kiwi Cia de Teatro. “A gente acredita que a cultura é importante na construção de um povo. Estamos cansados da política de gabinete, queremos a sociedade participando do que poderemos chamar de uma verdadeira política pública de cultura para esse país”, diz, e alerta: “Essa é só a primeira manifestação pública do nosso movimento. Outras bombas vão explodir”.

A manifestação começou às 14h da tarde e permaneceu até as 17h em frente a Funarte, com um grande palco montado onde se realizaram apresentações artísticas e falas de solidariedade de movimentos apoiando as reivindicações. Logo no início, uma estrutura com rodas imitando um barco carregando duas mulheres no megafone desceu a rua em cantoria, explicitando as principais pautas do movimento: “A cultura é a coisa mais linda que um povo pode ter / Se a dona Dilma não acredita, o futuro vai tremer / 2% é o mínimo que nós vamos aceitar / ô trabalhador, tenho a minha consciência / agora chegou a hora de perder a paciência”.

Entre os muitos grupos presentes, estavam o Grupo XIX de Teatro, Cia Estável, Cia de Teatro Dolores, Teatro Artimanha, Cia do Latão, Cooperativa Paulista de Teatro, Cia do Feijão, Cia São Jorge de Variedades, Núcleo Bartolomeu, Brava Cia de Teatro, Engenho Teatral, Cooperativa Paulista de Dança, Kiwi Cia de Teatro, Trupe Olho da Rua, Núcleo Pavanelli de Teatro de Rua e Circo, Rede Livre Leste, Buraco D’Oráculo, Pombas Urbanas, Rede Brasileira de Teatro de Rua, Cooperativa Paulista de Circo, Núcleo 184 e Teatro Popular União e Olho Vivo.

Aos gritos de ordem como “avante juventude / juventude é para lutar / para construir / cultura popular”, entrarem pelos portões da Funarte, sendo guiados por um cortejo de maracatu. “A gente é hoje uma pedra no sapato do poder público. Permaneceremos em festa, vigília e atenção”, falou ao microfone um dos manifestantes.

“Vivemos um momento difícil porque com os governos petistas nós todos trabalhadores, seja da cultura ou de setores, imaginávamos que o olhar sobre áreas cruciais fosse ser outro”, avalia a dramaturga Dulce Muniz, diretora do Núcleo 184. “Esperávamos que a Dilma fosse pegar o touro a unha, que fosse tomar uma atitude um pouco menos complacente do que foi a do Lula. Pensávamos que no governo ela fosse mandar recados mais claros de que seu comprometimento é com o trabalhador e não o capital”, afirma. Para Dulce Muniz, uma política pública decente para a cultura “é a única política que pode construir um povo autônomo, crítico, e principalmente um povo feliz. Se não tivermos política pública ficamos na mão do capital, continuamos dependendo da vontade de pessoas que querem dar migalhas”. “A arte é absolutamente necessária. Se o governo não tem essa posição de criar mecanismos importantes, transparentes e públicos para o financiamento das artes, nós não vamos a lugar nenhum”, completa.

Os trabalhadores da cultura passarão a noite na Funarte e não tem data para sair. Já se dividiram em comissões – como de segurança, comunicação, alimentação, entre outras – e estão em estado de assembleia permanente. “Esse é o primeiro ato de muitos que virão, estamos apresentando as nossas exigências. Estamos nos estruturando em luta, ainda não definimos por quanto tempo vamos ficar por aqui. Estamos criando uma cultura de trabalhadores em luta, forçados pelas condições da materialidade”, relata Luciano Carvalho, do Coletivo Dolores.

Luciano esteve presente também na ocupação da Funarte de 2009, na qual as reivindicações eram também voltadas para a exigência de políticas públicas para a arte pública. Alguma conquista naquela ocasião? Ele sorri e diz que o que conquistaram foi a “consciência crítica de um coletivo enorme, de que esse tipo de negociação é mais um mecanismo das estruturas de poder para não executar o que é reivindicado”. Carvalho conta que naquela circunstância, há dois anos, a ocupação tinha a função de forçar um diálogo com o Ministério da Cultura para colocar em prática as reivindicações. O diálogo foi conquistado, formou-se uma comissão que realizou uma série de reuniões com representantes do Ministério, mas as pautas principais não foram atendidas, “senão não estaríamos aqui, infelizmente nossas reivindicações ainda são as mesmas”, atesta Fernanda Azevedo.

“Os movimentos populares têm sede de acessar políticas públicas para poderem se exprimir. Esses recursos não chegam nem aos movimentos sociais, nem aos trabalhadores da cultura”, aponta Luciano Carvalho. “Isso privilegia o patronato, que vai contratar os trabalhadores ao sabor dos seus gostos ideológicos, estéticos, não aceitamos continuar reféns”, argumenta.

Um pouco antes de entrarem no território do órgão supostamente responsável pelo desenvolvimento de políticas públicas para as artes, uma artista subiu ao palco para ler o poema do professor de sociologia da UFRJ e membro do Comitê Central do PCB, Mauro Iasi, que deu nome à manifestação:

Quando os trabalhadores perderem a paciência

As pessoas comerão três vezes ao dia
E passearão de mãos dadas ao entardecer
A vida será livre e não a concorrência
Quando os trabalhadores perderem a paciência

Certas pessoas perderão seus cargos e empregos
O trabalho deixará de ser um meio de vida
As pessoas poderão fazer coisas de maior pertinência
Quando os trabalhadores perderem a paciência

O mundo não terá fronteiras
Nem estados, nem militares para proteger estados
Nem estados para proteger militares prepotências
Quando os trabalhadores perderem a paciência

A pele será carícia e o corpo delícia
E os namorados farão amor não mercantil
Enquanto é a fome que vai virar indecência
Quando os trabalhadores perderem a paciência

Quando os trabalhadores perderem a paciência
Não terá governo nem direito sem justiça
Nem juizes, nem doutores em sapiência
Nem padres, nem excelências

Uma fruta será fruta, sem valor e sem troca
Sem que o humano se oculte na aparência
A necessidade e o desejo serão o termo de equivalência
Quando os trabalhadores perderem a paciência

Quando os trabalhadores perderem a paciência
Depois de dez anos sem uso, por pura obscelescência
A filósofa-faxineira passando pelo palácio dirá:
“declaro vaga a presidência”!


Fonte: http://carosamigos.terra.com.br/index/index.php/noticias/1822-artistas-ocupam-a-funarte-em-sao-paulo

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Ipea e OIT avaliam o impacto da pandemia sobre jovens no mercado de trabalho do Brasil

Protesto contra falta de emprego bloqueia ponte do Brooklyn nos EUA

Greve dos bancários continua após reunião com Fenaban terminar sem acordo