Ofensiva das empresas intensifica violência no Pará
27 de fevereiro de 2013
Por José Coutinho Júnior
Da Página do MST
O
Pará é o estado brasileiro com maior índice de trabalho escravo, crimes
ambientais e assassinato de trabalhadores no campo que lutam pela terra.
Segundo
Mercedes Zuliani, da Direção Nacional do MST no Pará, essa situação ocorre
porque a atuação do agronegócio e das grandes empresas, com conivência do
Estado, espoliam os recursos naturais e as terras da região, expulsando
violentamente os trabalhadores que contestam essa lógica de desenvolvimento.
“A
impunidade gera mais violência, outros casos e outros assassinatos. Quem faz
uma, duas vezes, vê que não acontece nada, que os crimes continuam impunes e a
sociedade permite isso, causa cada vez mais violência”.
Confira
a entrevista de Mercedes para a Página do MST sobre a violência no estado do
Pará:
Quantos
acampamentos e assentamentos do MST existem no estado? Eles são alvo de
violência?
Temos
seis acampamentos e seis assentamentos.
Há
um conflito permanente em todos os acampamnetos, porque além das empresas,
temos uma situação de compra e utilização das terras para especulação e lavagem
de dinheiro.
Tem
situações no sul do Pará em que o grupo do Fernandinho Beira-Mar compra terras
para lavar dinheiro.
Temos
no sudeste do estado a ação do Grupo Santa Bárbara, ligado ao Banco
Opportunity, do Daniel Dantas, que tem usado de trabalho escravo e invadido terras
públicas para a especulação. Utiliza de muita violência por meio das escoltas
armadas.
A
violência contra os trabalhadores por meio das escoltas armadas é constante,
assim como o trabalho escravo. Há um conflito permanente nessa região, nos
acampamentos principalmente, pois estes estão em terra pública, e vem
denunciando a questão do crime ambiental, do trabalho escravo e da violência
por essas escoltas armadas, que são os seguranças dessas grandes fazendas.
Os
assentamentos tem disputado um pouco mais com os projetos da Vale, então temos
assentamentos atingidos diretamente, onde passa o trilho da empresa por exemplo
tem ocorrido muitas mortes, há a questão da retirada de famílias de alguns
territórios para se duplicar a ferrovia, além de outros danos ao meio ambiente
e vida dos trabalhadores que são atingidos por esse impacto da mineração.
Como
agem as escoltas armadas?
As
escoltas armadas agem nos acampamentos, tendo feito ameaças permanentes às
famílias que vivem lá. É uma ameaça tanto psicológica, que deixa as pessoas
assustadas até de sair do acampamento para ir na rua, como física, de emboscada
aos trabalhadores. Uma ação da escolta armada do grupo Santa Bárbara assassinou
um jovem, que era de uma comunidade vizinha a um acampamento nosso.
Em
alguns momentos, as escoltas fazem tiroteios, para tentar desmobilizar e
espantar as famílias para que elas desistam da luta pela terra. E em qualquer
mobilização que fazemos denunciando os danos do agronegócio para a população do
estado, as escoltas atuam com violência. Elas tem sido esse instrumento
repressor das próprias empresas e fazendas para continuar ameaçando e causando
essa violência no estado.
Como
atuam as grandes empresas no Pará, e qual o impacto delas no aumento da
violência?
Há
uma disputa muito grande dos recursos naturais da região do Pará e da região
amazônica. Os minérios, a terra e água têm sido disputados por essas empresas.
Nesse momento do capitalismo, a apropriação desses recursos é uma necessidade
estratégica para as empresas capitalistas.
Uma
das empresas com essa presença é a Vale, que tem sua ação na região e vai até o
Maranhão, atingindo diretamente as famílias e comunidades por onde passa.
Uma
outra questão da exploração do capital dos recursos naturais é a água. Temos um
potencial hídrico nessa região, por conta da vegetação amazônica, capaz de
produzir muita energia, mas que ainda é insuficiente para esse modelo
instaurado.
O
Estado brasileiro, através do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) tem
melhorado a infraestrutura para que essas empresas continuem funcionando.
A
construção de hidrelétricas, por exemplo, em Altamira, Marabá e em outras
regiões, serve para produzir energia que não vai beneficiar as pessoas, mas
para garantir o funcionamento das grandes empresas e das siderúrgicas.
Por
esse motivo, a Amazônia está sendo espoliada de seus recursos naturais.
Comunidades indígenas, tradicionais, ribeirinhas e da luta pela terra tem sido
expulsas por onde passa o projeto do capital.
Isso
tem causado muita violência, porque a disputa do território, da vida e da
produção gera violência em todos os aspectos, tanto física, de ameaça às
principais lideranças, quanto de insegurança social para o povo nessas regiões.
O
que faz do Pará o Estado com maior trabalho escravo, crimes ambientais e
assassinatos de trabalhadores no campo?
Tanto
por essa disputa dos recursos naturais como por uma omissão do próprio Estado
nesses casos de violência. A Justiça não tem funcionado para garantir que de
fato se faça justiça em casos de assassinatos. A impunidade gera mais
violência, outros casos e outros assassinatos. Quem faz uma, duas vezes, vê que
não acontece nada, que os crimes continuam impunes e a sociedade permite isso,
causa cada vez mais violência.
Como
os latifundiários e empresas reagem aos movimentos sociais que lutam pela
terra?
Uma
das ações tem sido de ameaças contra lideranças. Já ocorreram várias mortes
nessa região por causa da luta pela terra, pela Reforma Agrária e em defesa dos
territórios, como o assassinato da Irmã Dorothy, do José Cláudio e da Maria do
Espírito Santo, do João Canuto, o próprio massacre de Eldorado dos Carajás...
Enfim, temos um histórico grande de violência no Pará.
O
latifúndio e empresas atuam no campo da ameaça, na judicialização dos conflitos
e criminalização dos movimentos. Qualquer ato que se faça para trazer para a
sociedade a importância da luta pela terra é sempre criminalizado.
O
Estado age mais numa perspectiva de sempre tentar tratar os conflitos que
surgem dessa disputa de projetos como se fossem casos isolados, que não têm
relação entre si. Além disso, a polícia reprime os movimentos em qualquer
mobilização.
A
criminalização dos movimentos sociais é forte, e ao mesmo tempo em que o
Judiciário não consegue garantir que a justiça seja feita.
Como
o Incra se posiciona diante dos conflitos?
O
Incra deveria pelo menos garantir que as terras que são públicas cumpram sua
função social.
Cumprir
a função social implica não ter desmatamento e trabalho escravo. Deve ser feita
a desapropriação de terras que têm ilegalidades e crimes que ameaçam a vida das
pessoas na região. As terras públicas devem ser destinadas para fins de Reforma
Agrária.
A
dificuldade do Incra é que o processo é muito devagar. Não consegue encaminhar,
não consegue criar projeto de assentamento, garantir infraestrutura necessária
para o desenvolvimento dos assentamentos na região.Com isso, se exime de sua
responsabilidade enquanto instituição pública que deveria garantir às famílias
o acesso e posse da terra.
Quando
não consegue criar assentamentos e garantir que a terra cumpra sua função
social, os conflitos vão eclodir cada dia mais, gerando essa situação de
violência.
Que
ações os movimentos que lutam pela terra no estado pretendem fazer para
denunciar a violência?
É
importante considerar que tem vários movimentos de luta pela terra e pela
Reforma Agrária, que tem construído essa perspectiva de defesa da Reforma e dos
recursos naturais para e com o povo. Muitos movimentos, inclusive os da cidade,
estão envolvidos nessa luta para construir um projeto popular.
As
ações dos vários movimentos que lutam pela terra, Reforma Agrária e justiça
social são a de garantir com que os sujeitos da região consigam viver, produzir
e reproduzir na terra e pela terra. As ocupações, acampamentos e mobilizações
que fazemos tem o intuito de garantir que a terra cumpra sua função social e
questionar esse desenvolvimento que o campo paraense tem adotados. Abril é um
período de importante lutas e mobilizações, no qual lembramos do massacre de
Eldorado dos Carajás, cujos assassinos continuam impunes, e o estado brasileiro
tem sua responsabilidade nisso.
A
mobilização e a denúncia são permanentes aqui no estado do Pará. Vamos fazer
ações que denunciem a impunidade dos assassinatos que ocorreram, em abril vai a
júri popular o assassinato do Zé Cláudio e da Maria do Espírito Santo, e por
outro lado além das denúncias a gente constrói permanentemente a Reforma
Agrária popular, com produção de alimentos saudáveis e também o desenvolvimento
dos assentamentos como espaços que geram vida.
Vamos
continuar a organizar nossas escolas, nossa formação crítica, que crie pessoas
críticas na região, capazes de entender essa realidade; vemos também a cultura
e a arte como processos emancipatórios, trazendo a identidade amazônica como
elemento da construção social desse povo e de seus territórios.
Como
a agroecologia se liga ao processo de construção de um novo modo de produção no
Pará?
A
agroecologia é um meio de produção e de respeito à vida. Temos várias
experiências em produção agroecológica, de relação com esse ambiente, com esse
bioma amazônico como forma de continuidade na terra, na região. Garantir a
permanência na terra e a produção já é uma forma de resistência e de denúncia
também.
Desde
os acampamentos temos construído o plantio diversificado, a construção de novas
relações com a natureza e experiências em educação, como forma de mostrar que a
Reforma Agrária é possível, necessária, e traz outros elementos constitutivos
da vida e da sociabilidade das pessoas que são importantes nesse momento e nessa
região.

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