Pureza estreia nos cinemas: Filme conta a heroica história da maranhense que lutou para livrar o filho do trabalho escravo contemporâneo

A luta de Dona Pureza a tornou um símbolo do combate ao trabalho escravo contemporâneo e agora a história dela chega aos cinemas, sendo interpretada pela atriz Dira Paes.


Por Liliane Cutrim, g1 MA

 



Pureza estreia nos cinemas: Filme conta a história da maranhense que lutou para livrar o filho do trabalho escravo contemporâneo — Foto: Divulgação


Estreia, nesta quinta-feira (19), em todo o Brasil, o filme ‘Pureza’, que conta a história da mãe maranhense Pureza Lopes Loyola, que durante três anos enfrentou diversos perigos e obstáculos para encontrar seu filho caçula, Antônio Abel, que tinha ido ao Pará em busca da sorte no garimpo.



Maranhense Pureza Lopes Loyola (Imagem retirada do documentário 'Pureza: uma mulher contra o trabalho escravo' do programa educacional Escravo, Nem Pensar! da ONG Repórter Brasil. — Foto: Reprodução/Escravo, Nem Pensar!


A luta de Dona Pureza a tornou um símbolo do combate ao trabalho escravo contemporâneo e agora a história dela chega aos cinemas, sendo interpretada pela atriz Dira Paes.



Cena do filme 'Pureza', com Dira Paes. — Foto: Divulgação / Downtown Filmes


A luta dela, iniciada em 1993, levou à criação de grupo que já resgatou 57 mil trabalhadores em condições análogas à escravidão. Considerada uma heroína abolicionista contemporânea, a luta de dona Pureza foi reconhecida internacionalmente e, assim, em 1997, recebeu em Londres o Prêmio Antiescravidão oferecido pela organização não governamental britânica Anti-Slavery International, a mais antiga organização abolicionista em atividade.


E para comemorar o lançamento do longa no Maranhão, protagonizado pela atriz Dira Paes, foi realizada uma coletiva de imprensa do filme na Procuradoria Regional do Trabalho - PRT 16ª Região, em São Luís, com participação da dona Pureza, da direção, elenco e convidados. O longa, dirigido por Renato Barbieri e produzido por Marcus Ligocki Jr., já foi vencedor de 28 prêmios nacionais e internacionais.


Durante o evento, Pureza Lopes contou que enfrentou grandes dificuldades na saga em busca de seu filho e que viu de perto o desespero de trabalhadores submetidos à escravidão contemporânea.


O diretor do filme Renato Barbieri trabalhou por cerca de 17 anos até o lançamento do longa. O cineasta destaca que o filme retrata apenas acontecimentos reais e falas de fato ditas por dona Pureza, porque sua história é tão rica que não precisou inserir histórias para encher espaço. O diretor destacou que para a produção do filme houve um intenso trabalho de pesquisa, para tentar transpor para a tela do cinema a profundidade, o impacto e importância da história de Pureza.


 “Foi uma pesquisa muito intensa, eu fui entrevistando   trabalhadores que foram escravizados, falei muito com dona   Pureza, fui conhecendo os abolicionistas, pessoas que foram   me dando muito subsídio. No fim, essa pesquisa ficou tão   grande, e o filme se passa de 1993 a 1995, que é o período da   jornada heroica de dona Pureza. O cinema é arte e é  ciência, e   a gente foi fazendo esse filme dentro de uma tecitura   dramatúrgica, artística e cinematográfica”,  destacou Barbieri.

 

O diretor também abordou o fato de o trabalho escravo contemporâneo ainda ser uma realidade no Brasil, por isso o filme Pureza é tão importante, pois traz à tona a servidão a qual milhares de trabalhadores brasileiros são submetidos.


“Infelizmente é uma história atualíssima, ela poderia ter acontecido hoje, em 2022. Infelizmente isso acontece. Tem muitas Purezas, mães absolutamente angustiadas pelo sumiço de seus filhos ou então essas mães recebem os restos dos seus filhos, como se fossem veteranos de guerra. O nosso país é rico, mas vivemos em um estado que eu diria que é colonial, porque ao mesmo tempo que a gente se separou de Portugal, nós nos tornamos colônia de nós mesmos, da nossa própria elite oligárquica escravagista. Então eu acho que está na hora da gente escrever um novo livro, um livro de uma nação livre”, defende Barbieri.


Um dos atores do filme é Marinaldo Soares Santos, um trabalhador que foi resgatado por três vezes de situação análoga à escravidão e atualmente faz parte da militância contra a exploração da mão de obra. Para ele, participar do filme foi uma oportunidade de mostrar a história que ele viveu.



 “Eu fui escravizado desde os meus 18 anos e fui resgatado três   vezes. E acontecia de eu estar sendo escravizado e eu achava   normal, achava que era porque eu era pobre e precisava daquilo ali. Na verdade eu nem reconhecia o meu direito. Só depois que eu fui resgatado pelo Centro de Defesa e me deram muitas explicações, foi que eu caí na real. E mostrar nossa história é um jeito de mostrar para as pessoas que ainda   existe trabalho escravo e foi um gesto de pedir socorro, pra ver   se damos um jeito de acabar com o trabalho escravo. Porque   se ficarmos de braços cruzados continuaria sempre do mesmo jeito ou até pior”, destacou Marinaldo.


Para a procuradora do Trabalho no Maranhão Virgínia de Azevedo Neves, a história de Marinaldo e dona Pureza retratam uma realidade ainda persistente no Brasil, principalmente no Maranhão, que ainda é o Estado do Brasil que mais alicia e fornece mão de obra escrava. A procuradora destaca que esse crime ainda acontece de forma intensa pela falta de políticas públicas que sejam capazes de modificar toda uma estrutura escravagista na qual o Brasil está inserido.


A luta dela, iniciada em 1993, levou à criação de grupo que já resgatou 57 mil trabalhadores em condições análogas à escravidão. Considerada uma heroína abolicionista contemporânea, a luta de dona Pureza foi reconhecida internacionalmente e, assim, em 1997, recebeu em Londres o Prêmio Antiescravidão oferecido pela organização não governamental britânica Anti-Slavery International, a mais antiga organização abolicionista em atividade.


“O trabalho escravo é muito rentável, gera lucro para o empregador, porque ele escraviza e ganha muito dinheiro não cumprindo as obrigações trabalhistas. Então, gera muito lucro no Brasil e no mundo e ele existe, primeiro, por causa do contexto histórico do nosso país. A história do Brasil de escravidão é de pessoas que foram, teoricamente, libertadas, mas que não teve nenhuma política pública de inserção dessas pessoas. Então, elas foram abandonadas e não tiveram uma profissionalização adequada. E os descendentes dessas pessoas vivem uma situação de pobreza absoluta, de desigualdade absoluta e pra sobreviver, elas têm que se submeter a esse tipo de trabalho”, explica Virgínia de Azevedo.


A procuradora do Trabalho também destaca que, ainda hoje, o Brasil não possui políticas públicas para a população mais pobre e há, também, uma negação por parte de muitas autoridades políticas de que haja trabalho escravo.



 “No momento em que as autoridades negam o trabalho   escravo, já destrói toda aquela política que vinha avançando.   Fora isso, é a questão do investimento. Como é que eu posso   combater o trabalho escravo? É com prevenção, repressão,   mobilização social, que é a função do filme Pureza, e   conscientização. Se eu não tiver recurso público direcionado   para isso, eu não vou conseguir avançar”, enfatiza a   procuradora Virgínia de Azevedo.

 

 

A saga de uma mãe



Pureza Lopes Loyola, que foi a inspiração do filme ‘Pureza’, é uma maranhense, nascida na cidade de Presidente Juscelino, município a 85 km de São Luís. Depois ela se mudou para Bacabal, a 240 km da capital, por causa do marido. Mas o casamento chegou ao fim, e dona Pureza ficou com cinco filhos para criar.


Para sobreviver, ela e os filhos trabalhavam em uma olaria e com a venda de tijolos. Evangélica, ela alfabetizou-se aos 40 anos com o objetivo de ler a Bíblia. Em 1993, a vida de Pureza tomou um rumo inimaginável. Depois de meses sem receber notícias do filho caçula, Antônio Abel, que tinha ido para o Estado do Pará em busca da sorte em um garimpo, Pureza decidiu seguir seu rastro. Ela saiu de casa apenas com a roupa do corpo, uma bolsa, sua Bíblia e uma foto do filho Abel.


Em busca de Abel, Pureza desafiou fazendeiros e jagunços para resgatar o filho da escravidão contemporânea na Amazônia brasileira. Ela se infiltrou em fazendas como cozinheira e descobriu um perverso sistema de aliciamento e escravidão de trabalhadores, que eram ‘contratados’ com falsas promessas, para derrubar grandes extensões de mata nativa a fim de converter a área em pastagem para o gado.


De fazenda em fazenda, Pureza conheceu de perto o drama dos peões e se tornando amiga e confidente de muitos trabalhadores. Ela conheceu o esquema dos empregadores, que confiscavam os documentos de identidade dos empregados e os tornavam totalmente dependentes dos encarregados para obter roupa, comida e produtos básicos. Pureza também ouviu relatos de trabalhadores que poderiam ser mortos se tentassem se rebelar ou fugir.


Após conseguir fugir do cárcere privado, dona Pureza decidiu agir e denunciou a situação dos trabalhadores. Com a ajuda da Comissão Pastoral da Terra (CPT), Pureza entrou em contato com o Ministério do Trabalho e o Ministério Público do Trabalho no Maranhão, no Pará e em Brasília. A mãe chegou a escrever cartas para três presidentes da República: Fernando Collor, Itamar Franco (o único que lhe respondeu) e Fernando Henrique Cardoso. Até hoje, ela guarda uma cópia de cada uma dessas cartas.


O reconhecimento da história heroica da luta de Pureza para encontrar Abel fez com que, em 1995, fosse criado o primeiro grupo especial móvel de fiscalização para fazer cumprir a lei e garantir os direitos trabalhistas em todo o território nacional. Do ano de criação até 2021, esse grupo conseguiu libertar mais de 57 mil trabalhadores em condições análogas à escravidão.


Além do grupo, a luta de Pureza também fez com que ela recebesse, em 1997, em Londres, o Prêmio AntiEscravidão da Anti-Slavery International, a mais antiga organização de combate ao trabalho escravo em atividade no mundo. Atualmente, Abel vive na cidade de Bacabal com dona Pureza e a família. O filme que relata essa história heroica pode ser visto a partir desta quinta-feira (19), nos principais cinemas do Brasil.



Trabalho escravo no Maranhão



Segundo o Ministério Público do Trabalho (MPT), o Maranhão continua sendo o maior fornecedor de mão de obra escrava do Brasil. O trabalho escravo contemporâneo é uma das tipificações do crime de tráfico de pessoas.


Segundo dados do Observatório Digital do Trabalho Escravo (MPT / OIT), 22% dos trabalhadores encontrados em situação análoga à escravidão no Brasil são maranhenses.


De 2003 a 2018, em todo território nacional, foram resgatados 8.119 trabalhadores nascidos no Maranhão, sendo que, 49% dessas vítimas se declararam pretas ou pardas. Em todo o território nacional, foram resgatados 45.028 trabalhadores de situações análogas à escravidão, com 54% das vítimas se declarando pretas ou pardas.


Entre os maranhenses resgatados, 39% eram analfabetos, 36% possuíam ensino fundamental incompleto e 82% das vítimas trabalhavam no setor agropecuário.



Setores Econômicos em que há mais casos de resgatados maranhenses:


  • 39% - criação de bovinos para corte
  • 22% fabricação de álcool
  • 16% - cultivo de arroz


Fluxos migratórios dos resgatados maranhenses


Entre os municípios maranhenses com maior número de trabalhadores egressos estão:

  • Codó (357 pessoas)
  • Açailândia (326)
  • Pastos Bons (267)
  • Imperatriz (230)
  • Santa Luzia (191)


Ainda segundo o MPT/OIT, os estados de destino dos trabalhadores resgatados nascidos no Maranhão são: Pará, São Paulo, Amapá, Tocantins, Ceará e Minas Gerais.



Legislação


O Brasil sancionou a Lei 13.344/2016, cujo texto inclui no Código Penal o crime de tráfico de pessoas, tipificado pelas ações de agenciar, recrutar, transportar, comprar ou alojar pessoa mediante ameaça, violência, fraude ou abuso, com a finalidade de remover órgãos, tecidos ou parte do corpo, submetê-la a condições análogas à escravidão, adoção ilegal e/ou exploração sexual.



Tráfico de pessoas no Brasil


O Ministério Público do Trabalho (MPT) registrou no país 1.496 denúncias de aliciamento e tráfico de trabalhadores, no período de 2014 ao início de julho deste ano.


Dados do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) revelam que o tráfico de pessoas movimenta mais de 30 bilhões de dólares e explora cerca de 2,5 milhões de pessoas no mundo.


Segundo o Ministério da Justiça, em 2018 e 2019, 184 brasileiros foram arrancados do país devido ao tráfico de pessoas - 30 deles (16%) eram crianças e adolescentes. Os casos são subnotificados.



Como denunciar


As denúncias contra o tráfico de pessoas e o trabalho escravo devem ser feitas por meio do Disque 100 e do Ligue 180. Casos também podem ser denunciados ao MPT, pelos sites www.mpt.mp.br ou www.prt16.mpt.mp.br (MPT-MA) e, ainda, pelo aplicativo MPT Pardal (disponível gratuitamente para Android e iOs).



Fonte: https://g1.globo.com/ma/maranhao/noticia/2022/05/19/pureza-estreia-nos-cinemas-filme-conta-a-heroica-historia-da-maranhense-que-lutou-para-livrar-o-filho-do-trabalho-escravo-contemporaneo.ghtml
























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