Com medo, mãe de extrativista executado diz que vai deixar sua casa

Mãe de José Cláudio teme ser assassinada. 


A execução do casal de extrativistas Maria do Espírito Santo da Silva e José Cláudio da Silva traumatizou a família, que fala em deixar o assentamento onde viviam juntos. A mãe de José Cláudio, a aposentada Raimunda da Silva dos Santos, de 73 anos, afirma que deixará o acampamento em Nova Ipixuna, cidade a 390 quilômetros de Belém, que o casal ajudou a fundar há aproximadamente 20 anos.

Dona Raimunda afirmou nesta quarta-feira, durante o velório do casal, que há vários meses pessoas batiam em sua porta em horários estranhos, inclusive de madrugada. Ela foi obrigada a colocar um cachorro em sua residência em uma tentativa de intimidar os invasores. “Mas nada funcionou”, disse. “Ora, se meu filho foi assassinado imagina que pode acontecer comigo?”, questiona a aposentada.

Ela mora com uma filha e mais três netos no povoado Arupá, próximo á Maçaranduba II, onde o casal de líderes ambientais vivia. Outros membros da família que também moram no Assentamento Agroextrativista Praia Alta Piranheira, que engloba vários povoados, devem deixar o local após o assassinato do casal. O próprio casal vivia ameaças de fazendeiros e de madeireiros da região e relatou o caso às autoridades locais. Porém, nenhuma medida foi tomada.


“Era comum pessoas nos ameaçarem com tiros”, disse a sobrinha do casal, Clara Santos.

O assentamento



Cerca de 700 pessoas compareceram ao velório do casal, que foi realizado em uma residência no bairro Nova Marabá, na periferia de Marabá - cidade a 440 quilômetros de Belém. Na residência dos familiares do casal há faixas pretas pedindo justiça, o fim da violência no campo e o fim da impunidade.

Nesta quinta-feira, movimentos sociais prometem realizar protestos cobrando das autoridades celeridade nas investigações. “O Estado, sem dúvida, é culpado dessa morte. Afinal, eles denunciaram os conflitos agrários na região e, principalmente, pediram ajuda e nunca foram atendidos. Agora, não adianta mais”, declarou o Atanagildo Matos, coordenador do Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS).

Alguns curiosos, amigos da família e também vizinhos também demonstraram sua revolta, mas evitaram dar nomes. Muitas pessoas temem retaliações de madeireiros e fazendeiros. “Normalmente, quem bate em madeireiro não fica muito tempo vivo”, justificou um morador que preferiu não se identificar. “Mas esse crime foi revoltante. Ele apenas lutava pela floreta. Apenas isso”, complementou.


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