Não à contaminação por produtos químicos

Vítimas de fábrica de pesticidas, trabalhadores fazem filme e cartilha para alertar e prevenir.

   Durante as gravações do longa-metragem O lucro acima da vida, o coordenador da Associação de Trabalhadores Expostos a Substâncias Químicas (Atesq), Antônio de Marco Rasteiro, pôde observar uma parte de sua trajetória no desempenho do ator Deo Garcez, que o representou. Antônio, que fez figuração no filme, é líder do grupo que lutou por esclarecimentos e reparação na Justiça pelos crimes ambientais cometidos pelas empresas Shell Brasil e Basf S.A., na planta industrial de Recanto dos Pássaros, bairro do município de Paulínia (SP). Ele trabalhou na fábrica de agrotóxicos da Shell, por 21 anos, de 1977 a 1998, a maior parte do tempo, à frente da produção. 

   A fábrica encerrou suas atividades em 2002, interditada pelo Ministério Público do Trabalho. Em 2013, o Tribunal Superior do Trabalho proferiu sentença favorável aos 1.224 trabalhadores que passaram por lá, entre 1997 e 2002, ou seus descendentes, com indenização por dano moral coletivo de R$ 200 milhões. “O acordo é considerado vitorioso porque as empresas são muito grandes e poderosas”, observa Bruno Pegnolatto, um dos advogados dos trabalhadores. 

   O filme, baseado nesses fatos, aborda dramas humanos individuais e a luta dos trabalhadores ao longo dos 12 anos em que tramitou o processo judicial (de 2001 a 2013). Em fase final de produção – por meio de crowdfunding, organizado pelo Sindicato dos Químicos Unificados da região de Campinas, Osasco e Vinhedo – é um dos caminhos pelos quais Antônio e seus colegas lançam um alerta para que não se repita uma história que tem como saldo a morte de mais de 60 trabalhadores. 

Contribuição e prevenção

   Sintomas como dores de cabeça e musculares, diarreia e mal estar frequentes acometiam os operários, que associaram o quadro à exposição às substâncias químicas da fábrica onde trabalhavam. Eles passaram a se reunir, discutir o tema e buscar explicações em longo e duro processo. “Se no início queríamos saber o que aconteceria conosco, agora, sentimos necessidade de deixar uma contribuição para que isso não aconteça novamente”, diz Antônio, que conta já ter operado um câncer na próstata e outro no pulmão. “Sou hipertenso e apresento atrofia da tireoide”, diz ele, que tem 66 anos. 

   Dirigido por Nic Nilson, o filme conta com cerca de cem ex-trabalhadores como figurantes. A ideia de realiza-lo partiu do Sindicato dos Químicos Unificados e da Atesq, que já haviam elaborado documentário sobre o tema, em 2009. “Um público maior pode ser atraído por um filme de ficção baseado em fatos”, considera Antônio, acrescentando que um piloto já foi exibido no Teatro Municipal de Paulínia, reunindo 1,3 mil pessoas.

   Parte dos recursos para cobrir o orçamento de R$ 1,3 milhão foi levantada pelas próprias entidades idealizadoras; parte da produção é patrocinada pela Federação dos Trabalhadores do Ramo Químico de São Paulo (Fetquim). As gravações foram retomadas em agosto, e, para que o filme seja finalizado, serão necessárias as doações pelo crowdfunding. Alguns já doaram parte do cachê. O nome e valor doado por qualquer pessoa ou empresa ficam expostos no site www.filmecasoshell.com.





Cartilha

   Entre as iniciativas do Sindicato dos Químicos Unificados da Região de Campinas, Osasco e Vinhedo para alertar a população sobre os riscos de intoxicação por substâncias químicas no local de trabalho está também uma cartilha. Disponível na internet, a publicação lista quais são as substâncias tóxicas, seus efeitos e como avaliar os riscos de exposição.

    Um resultado positivo da mobilização dos trabalhadores comemorado por Antônio é o Protocolo de Atenção e Vigilância, que orienta a proteção à saúde daqueles potencialmente expostos a produtos químicos. “É um programa inédito, criado em dezembro, e que passou a ser referência no país em casos semelhantes”, explica. A iniciativa busca a prevenção, no lugar de se esperar surgirem doenças, para, então, tratá-las. “Adquirimos confiança na luta. Ainda é possível prolongar a vida desses trabalhadores”. 

Saiba Mais:

Cartilha intoxicação no local no trabalho 
www.quimicosunificados.com.br/arquivos/2011/03/cartilha-intoxicacao-2009_para_internet.pdf

Protocolo de Atenção e Vigilância
www.quimicosunificados.com.br/arquivos/2011/03/protocolo_atendimento_2007.pdf

Sindicato dos Químicos da Região de Campinas, Osasco e Vinhedo
www.quimicosunificados.com.br

Federação dos Trabalhadores do Ramo Químico de São Paulo
www.fetquim.org.br/

Associação de Trabalhadores Expostos a Substâncias Químicas
www.atesq.org.br

‘O lucro acima da vida’
www.filmecasoshell.com
Autor: 
 Elisa Batalha

Fonte:http://www6.ensp.fiocruz.br/radis/revista-radis/143/comunicacao_e_saude/ 

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