‘Pelo amor de deus, não vá ao banheiro’
“Pelo
amor de deus, pelo que você mais ama no mundo, não vá ao banheiro”, é o que
Gislaine* já ouviu algumas vezes de sua supervisora em uma das unidades da
Contax do Recife (PE), onde trabalha como atendente de telemarketing da
operadora de celular Oi.
Em
geral, o apelo acontece em dias de medição da Agência Nacional de
Telecomunicações (Anatel), uma vez ao mês. Mas as restrições às idas para
satisfazer as necessidades fisiológicas são cotidianas. “Por duas vezes já fiz
xixi nas calças, na rua, porque fiquei segurando durante o dia”, conta a jovem
à Repórter Brasil.
Na
Contax, os funcionários têm de cumprir pausas programadas: 20 minutos para as
refeições e dois intervalos de 10 minutos cada. Fora desses horários, as pausas
são consideradas pessoais e, por isso, o trabalhador pode perder parte de seu
salário e até levar suspensões. “A gente é muito perseguida, monitorada, temos
de trabalhar em cima de metas. Não pode ir no banheiro, é como se estivesse
prejudicando a supervisora. A minha disse que eu só poderia ir se estivesse
muito, muito, muito, apertada. ‘Você venha falar comigo e eu vejo se você pode
ir’”.
Em
maio de 2013, a Repórter Brasil acompanhou a fiscalização da
Superintendência Regional do Trabalho e Emprego de Pernambuco (SRTE/PE) nas
unidades da Contax no Recife. Em outubro do mesmo ano, a ação se tornou
nacional e culminou,
em dezembro de 2014, na autuação de sete empresas de telecomunicações e do
setor financeiro por inúmeras violações trabalhistas. O Ministério do
Trabalho e Emprego (MTE) responsabilizou Oi, Vivo, Santander, Itaú, NET,
Citibank e Bradesco por considerar
ilícita a terceirização dos respectivos serviços de teleatendimento.
O
site Santo Amaro, a maior unidade da empresa na capital pernambucana, chama a
atenção pela imponência. Ocupa metade de um quarteirão no bairro de mesmo nome,
na região central da cidade. Seja pelo lado de fora, seja pelo lado de dentro,
o prédio lembra um shopping center. No interior, escadas rolantes quase sempre
cheias de gente. Cerca de 15 mil trabalhadores se revezam pelos três turnos do
dia. A unidade está aberta 24 horas por dia. As salas são separadas por
divisórias de vidro e cada uma é reservada para uma só empresa. Os operadores
de cada contratante nunca dividem o mesmo espaço. Dentro, um sem-fim de postos
de atendimento enfileirados.
A
circulação é intensa. Ao perceberem a presença dos auditores fiscais do
Ministério do Trabalho, acompanhados de agentes da Polícia Federal, dezenas de
pessoas, em sua grande maioria mulheres jovens, se aproximam. E começam a falar
sem parar sobre os abusos sofridos. A sensação é de que têm muito o que dizer,
mas precisam voltar da pausa programada a qualquer momento. Falam da
impossibilidade de irem ao banheiro quando querem. Uma das jovens, com a
barriga de grávida já bastante proeminente, reclama que sua condição exige
diversas idas ao sanitário. Já se conformou em não ganhar a chamada remuneração
variável por isso. Mesmo assim, sofre assédio de sua supervisora.
Outras
criticam o estabelecimento de metas impossíveis de serem cumpridas, os poucos
minutos que têm para almoçar ou jantar, os xingamentos e gritos que ouvem dos
superiores, os problemas no ouvido, na coluna e nas articulações que adquiriram
por conta do trabalho que fazem. Lembram que os médicos do trabalho contratados
pela Contax são coniventes com a empresa e muitas vezes não fornecem atestado
médico.
Nas
áreas de refeitório, aparelhos de microondas servem para os funcionários
esquentarem suas marmitas, que estavam acondicionadas junto com bolsas e outros
pertences pessoais em pequenos armários de ferro nos corredores. São muito
poucos aparelhos para muita gente, formando filas de espera de cinco a dez
minutos – para um intervalo para refeições de 20 minutos, é bom lembrar.
Gislaine
sofre muito com essa realidade. “Não aguento mais, tenho crises de choro, vivo
angustiada, com medo de ficar doida. Me sinto perseguida, ameaçada”, diz.
“Quando estou em casa choro porque sei que no outro dia vou ter de ir trabalhar.”
Além dos problemas psicológicos, a jovem padece de dores nas costas. Mas,
quando se queixa, a supervisora a chama de mentirosa. “E a empresa ameaça os
médicos. Fui tirar radiografia da coluna, pedi atestado mas o médico disse que
não estava autorizado a fornecê-lo.”
Segundo
Gislaine, as pressões contra ela aumentaram desde que souberam que ela queria
ser demitida. “Quando eles sabem que a gente quer sair eles monitoram mais.
Acho que estão me pressionando para eu mesma me demitir”, diz. A jovem atendente
de telemarketing diz que um dos principais objetivos dos funcionários que
trabalham na Contax é encontrar o que chamam de “degrau da rua”. Ou seja, ser
demitido sem justa causa.
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