Brasil vai entrar numa época de manifestações sindicais e sociais, diz sociólogo.
Considerando a importância e atualidade do tema e sua relação com o Observatório do trabalho no Brasil, reproduzimos a entrevista com o professor de Sociologia do Trabalho, da Unicamp, Ricardo Antunes pelo Jornal do Brasil on line.
Por sua profundidade e extensão, a apresentaremos em três momentos: dia seis, treze e vinte de setembro.
" O projeto de reforma trabalhista sinalizado pelo atual governo brasileiro é uma "imposição dos interesses financeiros que comandam a economia do país", aponta Ricardo Antunes, professor de Sociologia do Trabalho da Unicamp e autor de diversos livros sobre o tema, entre eles "Sentidos do Trabalho", publicado no Brasil, na Argentina, nos Estados Unidos, na Inglaterra, Holanda, Itália, Portugal e Índia; e "Adeus ao trabalho?", editado no Brasil, na Argentina, Venezuela, Colômbia, Espanha e Itália. "O cenário que vamos ter nos próximos dois trimestres é desalentador, e vai fazer com que o movimento sindical e os movimentos sociais lutem ardorosamente."
Por sua profundidade e extensão, a apresentaremos em três momentos: dia seis, treze e vinte de setembro.
" O projeto de reforma trabalhista sinalizado pelo atual governo brasileiro é uma "imposição dos interesses financeiros que comandam a economia do país", aponta Ricardo Antunes, professor de Sociologia do Trabalho da Unicamp e autor de diversos livros sobre o tema, entre eles "Sentidos do Trabalho", publicado no Brasil, na Argentina, nos Estados Unidos, na Inglaterra, Holanda, Itália, Portugal e Índia; e "Adeus ao trabalho?", editado no Brasil, na Argentina, Venezuela, Colômbia, Espanha e Itália. "O cenário que vamos ter nos próximos dois trimestres é desalentador, e vai fazer com que o movimento sindical e os movimentos sociais lutem ardorosamente."
A repercussão do trabalho de Antunes em
países do mundo inteiro permitiu ao professor debater e analisar tendências
globais do mercado de trabalho. Em entrevista por telefone ao JB na noite de
quarta-feira (31), Antunes traçou o caminho que o mercado de trabalho tem
seguido no mundo, como os trabalhadores têm procurado se organizar para lidar
com novos cenários e fez uma leitura da situação brasileira em meio à crise
política e econômica.
"Nós vamos entrar numa época de
confrontação social, de manifestações sindicais e sociais", destacou
Antunes na entrevista. "O período que vai de 2016 a 2018 será uma sucessão
amplificada e articulada de crises sociais e crises políticas."
Na ocasião de sua posse, o presidente Michel
Temer destacou que vai "modernizar as leis trabalhistas, para garantir os
atuais e gerar novos empregos”. Para Antunes, tal modernização abre caminho
para uma série de mudanças "profundamente destrutivas" para a classe
trabalhadora.
"Estamos no pior momento. Governo nenhum
que destrói direitos diz que vai destruir direitos", ressalta Antunes.
"Se o governo dissesse 'eu vou devastar', 'eu vou fazer uma verdadeira
devastação social' ele teria o repúdio. Então, a grande alquimia, a falácia que
é profunda falsidade, é dizer que eu vou criar direitos destruindo
direitos."
Antunes acredita, contudo, que tais medidas
"não são inevitáveis": "O movimento sindical pode impedi-las, os
movimentos sociais podem impedi-las".
Confira a entrevista, na íntegra:
Jornal
do Brasil - Na semana passada, o então presidente interino defendeu a proposta
de reforma trabalhista, com o argumento de que a intenção não seria retirar
direitos, mas manter empregos. Ele também informou que deveria enviar a
proposta de reforma trabalhista e de regulamentação do processo de
terceirização ao Congresso até o final deste ano. Hoje [quarta-feira], prometeu
“modernizar as leis trabalhistas", "para garantir os atuais e gerar
novos empregos”. No ano passado, quando conversamos, o senhor reforçou que o
projeto de terceirização aprovado pela Câmara dos Deputados geraria escravos
modernos, e que era imperioso derrotá-lo. Onde estamos agora?
Ricardo
Antunes - Estamos no pior
momento. Governo nenhum que destrói direitos diz que vai destruir direitos. Nós
acabamos de ver, por exemplo, na França, o governo de [François] Hollande
iniciar um processo de destruição de uma parcela importante dos direitos do
trabalho, dizendo que não ia destruir direitos.
A vitória parlamentar que consolida o
'golpe', no sentido parlamentar do termo, que hoje [na quarta-feira] se
consolidou impeachmando o governo Dilma, abre caminho para uma série de
mudanças que são profundamente destrutivas em relação à classe trabalhadora.
Isto é muito importante que se tenha claro.
Primeiro ponto, o preceito, o princípio
fundamental do governo Temer é o princípio do "negociado sobre o
legislado". O projeto "Ponte para o Futuro", que na verdade é um
atalho para o abismo social, diz que vai haver negociado sobre o legislado sem
a perda de direitos. Só que é impossível estabelecer o primado negociado sobre
legislado que não seja para reduzir direitos. A ideia do governo não é
estabelecer o negociado sobre o legislado para avançar nos direitos, é para
reduzir os salários, é para flexibilizar a jornada de trabalho, é para
intensificar o banco de horas, é para fazer com que haja redução da jornada com
redução do salário.
Então, é evidente que esse preceito do
negociado sobre o legislado enfraquece o conjunto da classe trabalhadora e traz
a corrosão dos direitos. Ainda nos sindicatos que têm alguma força, a perda
será menor, mas será perda. Não há negociado sobre legislado em condição de crise
que beneficie a classe trabalhadora.
Mas você imagina, com o conjunto de
sindicatos do país inteiro que tem menor força organizativa, é óbvio que a
ideia é reduzir direitos que foram adquiridos desde a CLT. Nenhum governo vai
dizer abertamente, ainda mais um governo conservador e sem legitimidade, porque
resulta de, digamos, um rearranjo, em que o programa que ele quer implementar
não tem o respaldo das urnas.
O resultado disso é que, junto com o
negociado sobre o legislado, vem a ideia de avançar na terceirização do
trabalho. A terceirização do trabalho é também dita pelo governo como um
caminho para criar empregos, mas isso é de uma falsidade enorme.
Alguém pode dizer, "mas, professor,
existem hoje 12 milhões de terceirizados no Brasil, são 12 milhões de
empregos". Um número significativo de trabalhadores hoje é terceirizado --
homens e mulheres terceirizados --, só que os trabalhadores terceirizados e as
trabalhadoras terceirizadas trabalham em média mais horas semanais do que os
trabalhadores regulados pela CLT. Se eles trabalham mais horas e recebem menos,
onde existem três ou quatro trabalhadores ou trabalhadoras celetistas, eles vão
ser substituídos por três ou dois trabalhadores ou trabalhadoras terceirizados.
Basta um pouco de aritmética e de matemática
para saber que onde um número x de trabalhadores realizava um certo tipo de
trabalho, agora esse mesmo trabalho, essa mesma atividade será realizada por um
número inferior. Ou seja, a terceirização desemprega. Ela não emprega. Ela
empregou 12 milhões, mas ela desempregou 15 ou 16 milhões, em condições mais
adversas, porque os salários são significativamente menores e em condições de
trabalho que frequentemente burlam a legislação do trabalho.
>>
Projeto de terceirização gera 'escravos modernos', analisa Antunes.
O resultado desse desenho, dessa propositura
do governo é destruir a CLT. E o que significa destruir a CLT? É destruir o que
a classe trabalhadora considera como sendo a sua Constituição, porque desde a
sua implementação em 1943 que ela desenhou um conjunto de direitos sociais do
trabalho.
O IBGE publicou que nós já estamos com 11,6% de desemprego, que significam 11,8 milhões trabalhadores e trabalhadoras sem emprego. E esses dados minimizam, porque nós sabemos que um trabalhador ou uma trabalhadora que em certo período não procura mais emprego, porque não encontra emprego, some das estatísticas como desempregado. E por que ele não procura emprego? Porque é muito caro, trabalhoso, árduo e difícil procurar emprego por dois, três, quatro, cinco dias.
Você precisa de dinheiro para sair, pagar a
condução, alimentar-se, no final do dia você volta de uma jornada extenuante
sem nenhuma resposta positiva. Um mês depois o trabalhador desiste, porque ele
percebe que não há portas abertas. E ele some da estatística como desempregado.
O mesmo vale para quem trabalha algumas horas por semana. Quem lava carros
algumas horas por semana não está empregado. Há uma massa enorme de
desempregados e subempregados que as estatísticas não contemplam.
Por isso o projeto é nefasto, e ele é uma
imposição dos interesses financeiros que comandam a economia do país. Isso
atinge bancários, metalúrgicos, trabalhadores de call center, jornalistas,
professores, o conjunto de trabalhos acaba tendo como resultante o enfraquecimento.
Agora, se o governo dissesse "eu vou
devastar", "eu vou fazer uma verdadeira devastação social", ele
teria o repúdio. Então, a grande alquimia, a falácia, que é profunda falsidade,
é dizer que eu vou criar direitos destruindo direitos. É disto que se trata.
Não há nenhuma pesquisa séria, rigorosa, com
critério científico, realizada nas universidades, que demonstre vantagens para
a terceirização. Quem defende que a terceirização é vantajosa é a Febraban, são
as federações das indústrias, etc.
Não é por acaso que, algumas semanas atrás, o
presidente da Confederação Nacional das Indústrias fez o absurdo de propor que
a classe trabalhadora brasileira pudesse ter uma jornada de até 80 horas por
semana, dizendo, um erro grotesco, que assim já era até na França. Quer dizer,
é um erro crasso, porque a França é um país que, digamos assim, ainda que o
governo Hollande esteja tentando destruir parte desses direitos, os
trabalhadores franceses, com a trajetória que têm, consolidaram direitos e,
segundo, mostra até onde pode chegar o sonho de setores do empresariado
industrial que querem isto que eu disse na entrevista [anterior ao JB] e que é
inteiramente atual: recuperar formas de escravidão moderna de trabalho. Nem na
escravidão os trabalhadores trabalhavam 80 horas por semana, para que se tenha
uma ideia do absurdo.
Depois nós sabemos que o presidente da CNI
negou a fala, mas a fala está gravada, foi citada pela grande imprensa,
certamente a grande imprensa não inventou, foi um descuido do presidente, que
mostra até onde é capaz de avançar o imaginário empresarial.
Por fim, os jornais de hoje [quarta-feira]
mostram também que até o número de trabalhadores autônomos, os chamados
"empreendedores", recuou neste último trimestre porque o desemprego
não só atingiu o emprego formal como também estão sendo fechadas atividades
pequenas, criadas por esses trabalhadores que acreditaram no chamado
“empreendedorismo”, percebendo que é muito mais difícil num contexto de crise
sobreviver. E a média salarial também se reduziu neste último trimestre.
Este é o cenário, portanto, muito
desfavorável para a classe trabalhadora".
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