Brasil vai entrar numa época de manifestações sindicais e sociais, diz sociólogo
Parte final da reportagem com o Profº Ricardo Antunes:
Jornal do Brasil - Como fica a ação sindical neste contexto?
Jornal do Brasil - Como fica a ação sindical neste contexto?
Ricardo Antunes - São dois
elementos importantes. Primeiro, onde há resistência sindical, os empresários
não conseguem implementar [reformas] com esta intensidade. Por exemplo, a
França, que tem tradição de luta sindical, a Alemanha, que também tem sindicatos
fortes, etc., consegue segurar e impedir a intensidade dessas medidas de
desregulamentação do trabalho. Na Inglaterra, pelo contrário, onde o
neoliberalismo foi devastador, muitos sindicatos foram profundamente atingidos.
Nos Estados Unidos e em outros países, todos eles são neoliberais, mas alguns
são mais devastadoramente neoliberais, como inclusive foi o caso do
neoliberalismo inglês, um verdadeiro laboratório do neoliberalismo na Europa,
mais agressivo, com Margaret Thatcher, depois com John Major.
Onde os sindicatos são mais
fortes, a resistência é maior. Agora, a defesa dessas medidas [do governo no
Brasil] é antissindical, é diminuir a solidariedade entre os trabalhadores, é
criar situações, onde, digamos, não consigam preservar os laços de solidariedade.
Porque, a terceirização é uma contratação entre empresas, a contratante e a
contratada, no qual a empresa contratada vai oferecer os trabalhadores que são
solicitados pela empresa contratante. Então não há um vinculo empregatício
entre a empresa e os trabalhadores que trabalham nela. Isto permite toda a gama
de burla, fraude de direitos e dificulta a organização sindical, na medida em
que você tem uma tendência à individualização das relações de trabalho.
O PJ, a
"pejotização", é a ideia de converter o trabalhador ou a trabalhadora
como pessoa jurídica e estabelecer o contrato de prestação de serviços. Quando
ele adoece, por exemplo, se ele não tiver bom sistema privado de saúde, não tem
sequer recursos para poder ter um atendimento de saúde. E essa pulverização,
esta individualização, este exacerbar do individualismo e das relações
individualizadas entre empresa terceirizada e trabalhadores, tudo isso tende a
enfraquecer bastante a organização sindical.
É vital, portanto, que os
sindicatos compreendam isso. Para fazer um paralelo, do século 19 para o século
20, quando as empresas deixaram de ser empresas mais tradicionais, empresas de
origem anteriormente manufatureira que se tornaram grandes empresas
industriais, os sindicatos deixaram de ser sindicatos de artesãos, e tiveram
que criar o sindicato da grande indústria. Hoje os sindicatos estão vivendo um
desafio assemelhado ainda mais profundo.
Em vez de grandes empresas
tayloristas e fordistas do século 20, que magistralmente o Chaplin caricaturou
na sua obra-prima "Os tempos modernos", hoje esta ideia de que cada
um deve ter uma relação de trabalho com uma empresa que contrata, sem a
mediação do coletivo, vai obrigar os sindicatos a reconfigurar, a redesenhar,
as formas de organização sindical. Isso não levará, no meu entendimento, ao fim
dos sindicatos, mas leva a uma necessidade imperiosa de os sindicatos se
reorganizarem.
Por exemplo, no passado,
tínhamos sindicatos das telefonistas que eram fortes, no Rio tinha-se a empresa
estatal de telefonia, a qual correspondia o Sindicato dos Trabalhadores
Telefônicos do Rio de Janeiro, assim valia para São Paulo e para outros estados
sucessivamente. Com a criação exponencial do trabalho online, do chamado
trabalho digital das teleoperadoras -- 70% do contingente é feminino no Brasil,
com esse trabalho das teleoperadoras, online, digitalizado, nasceu uma
categoria, que é a dos trabalhadores e trabalhadoras de Telemarketing. Muito
diferente do antigo trabalho do sistema de telefonia pública que existia nos
vários estados do Brasil nos anos 1960/1970. Isso está obrigando a que ou
sindicatos reelaborem e compreendam essa nova forma de ser, essa nova
morfologia do trabalho, ou está dando nascimento de novos sindicatos que já
estão tratando como realidade.
Você sabe que muitas
trabalhadoras do telemarketing estão isoladas umas das outras, há muita
rotatividade, muita informalidade, isso tudo é uma via que dificulta os
sindicatos. Os sindicatos são obrigados a repensar, a compreender essa nova
morfologia do trabalho e como é possível representá-las com autenticidade, com
sentido de classe, e voltado para os reais interesses das categorias que os
sindicatos representam. É por certo o desafio vital, um desafio global.
Se você vai à China, se você
vai à Índia, à Inglaterra, se vamos aos Estados Unidos, à França, Itália --
tenho viajado para todos esses países, tenho tido a sorte de meus livros terem
sido publicados em todos esses países que eu me referi --, essa realidade é
global, e os sindicatos também sofrem um desafio global. E há experiências,
sindicatos que procuram dentro deste quadro novo se reorganizar, ainda que em
uma situação mais adversa.
Mas vou dar uma pista, ainda
que profundamente heterogeneizada a classe trabalhadora, ainda que bastante
fragmentada e bastante complexificada, há uma tendência comum em tantas e
diversas categorias profissionais. Como é essa tendência comum? Relativamente
homogênea, em meio a tanta heterogeneidade, como essa tendência é
homogeneizante? É a luta contra a precarização do trabalho, que atinge os
jornalistas, os trabalhadores da tecnologia de informação e comunicação, os
trabalhadores da indústria de software, atinge também os trabalhadores de call
center, atinge trabalhadores metalúrgicos, atinge trabalhadores das cadeias produtivas
globais.
Hoje, as empresas-mãe, as
empresas centrais, elas têm a sua marca e elas vão terceirizando a sua produção
em várias partes do mundo. A Apple, por exemplo, tem como grande montadora a
Foxconn, na China -- a Foxconn também tem unidade no Brasil. Isto cria,
inclusive, uma dificuldade, porque a Foxconn realiza toda a montagem dos
produtos da Apple, mas não aparece a marca Foxconn, aparece a marca Appple. E
nem todos sabem que a Apple é montada pela Foxconn.
Em 2010, na Foxconn na
China, na unidade de Shenzhen -- os salários eram entre 100 e 200 dólares,
dependendo do nível de hora extra --, houve 17 tentativas de suicídio de
trabalhadores dado o estressamento, a superexploração do trabalho. Das 17
tentativas de suicídio, 13 delas tragicamente ocorreram. O que levou a uma
grita generalizada, que inclusive acertou a Apple, porque não só se pressionava
a Foxconn como a Apple que contratava a Foxconn. Então, o que a Foxconn é? Uma
grande empresa transnacional de terceirização global. É verdade que, no caso da
China, há ausência de sindicatos livres, isso tem desafiado a classe
trabalhadora chinesa a pensar em alternativas, a pensar em outras formas de
movimento, assim como a classes trabalhadora em tantas partes do mundo.
Jornal
do Brasil - O senhor também tinha comentado sobre o potencial de mudanças como
o projeto de terceirização de rebelar os trabalhadores e trabalhadoras.
Ricardo Antunes - Há
exemplos de empresas de call center e telemarketing onde tem havido
manifestações, greves. Por exemplo, a Foxconn que eu citei esses suicídios e a
intensidade da exploração do trabalho, isso vale para muitas outras empresas
similares. Isso tem levado às mais distintas formas de rebelião. No caso da
Foxconn da China, o uso da internet mostrando as dificuldades das condições
extenuantes de trabalho e intensificação da expansão do trabalho.
Eu coletava na semana
passada o depoimento de uma trabalhadora de montagem de produtos digitalizados
no Brasil. Ela dizia "olha, a gente tem a sensação de que um trabalho é
separado do outro, que eu estou pondo um vidro aqui de um equipamento que eu
nem sei o que que é", mas só o fato de ela fazer essa pergunta já é sinal
de uma percepção de que algo não vai bem.
Há greves no setor de
telemarketing no Brasil. Nós tivemos greves. Há pesquisas novas, há esboços de
organização sindical, há descontentamentos que vão desde o uso da internet até
greves, paralisações, revoltas. É por isso que nós estamos tendo tipos
diferentes de revolta, as greves ainda são recorrentes, a ideia de ter um
sindicato que representa os trabalhadores e trabalhadoras também é vital.
Por que eles buscam o
sindicato por mais que a campanha antissindicato seja forte? Porque o sindicato
é uma ferramenta de defesa da classe trabalhadora. Os sindicatos têm que
representar, porque se não representarem, esses trabalhadores vão buscar outros
caminhos, outras formas de manifestação de rebeldia, de luta, quer no plano
sindical, quer fazendo greves, quer através de depoimentos por internet e
outras, a classe trabalhadora demonstra a forma da intensidade da exploração a
que estão sujeitos.
Jornal
do Brasil - O senhor pode falar sobre a questão do desemprego que já vinha se
desenhando devido ao esgotamento de um ciclo econômico, e o desemprego que poderia
vir agora; e a precarização do trabalho que já tínhamos antes e a precarização
do trabalho que pode haver agora, no Brasil?
Ricardo Antunes - Nós
tivemos no Brasil entre 2003 e 2013 um crescimento expressivo dos empregos, na
casa de mais de 20 milhões, porque o país teve um ciclo de expansão econômica
forte. Acontece, entretanto, que, a partir de 2013, 2014, a crise econômica
global passou a ter repercussões mais profundas nos chamados Brics, na China,
na Índia, na Rússia, no Brasil, na África do Sul, em vários outros países,
especialmente Índia, China, Brasil. Este primeiro movimento, aliado a uma série
de equívocos que vinham sendo praticados pela política econômica vigente,
acabaram levando a um esgotamento do ciclo, acabaram levando a um quadro onde o
mito do país do grande crescimento, o mito do país da grande expansão, o mito
do país que ia para frente começasse a soçobrar.
Nós [Brasil]
começamos a ter, então, a partir de fim de 2014, início de 2015, uma acentuação
das tendências declinantes e o reaparecimento forte do desemprego. Só para
tratar deste último período, uma política completamente equivocada, o que fez o
governo Dilma? Foi buscar um ajuste fiscal bastante nefasto, comandado por
[Joaquim] Levy, que era o segundo homem de um grande banco no Brasil, ou seja,
completamente imbuído de um projeto neoliberal de desregulamentação do trabalho
e de um ajuste fiscal privatista, que diminuiu os efetivos de estado na
economia.
Esse ajuste fiscal brutal
retraiu fortemente a economia, porque foi exatamente o receituário utilizado
pelo sistema financeiro para preservar superávit primário, primeiro pagar juros
da divida, depois tentar um novo ciclo de expansão. Quando o governo Dilma
entra na crise política profunda que entrou -- isso começa em 2015, num quadro
que vai se acentuando -- a política recessiva também é implementada, isso
fazendo com que aquela tendência declinante fosse se expandindo, e o desemprego
passa a aumentar.
Quando Dilma sofre a
abertura do processo de impeachment na Câmara dos Deputados, quer dizer, no
meio de uma crise política profunda, houve uma retroalimentação, crise política
e crise econômica. Sobe, inicialmente em forma de interino, o governo Temer, e
este governo vai começar a tomar uma série de medidas claramente de desregulamentação
do trabalho, de botar o pé no breque, e gerenciar uma política de arrocho, de
tal modo que você tivesse como consequência não mais o incentivo à produção,
mas um desincentivo à produção e o consequente aumento do desemprego.
Por isso que, desde que o
Temer assumiu, há mais de 100 dias, o desemprego não para de aumentar. O seu
receituário é ainda mais destrutivo do que o do primeiro ano de Dilma. É um
receituário da privatização, da desregulamentação e da precarização do
trabalho, os três tomados em um acelerador em ritmo alto.
Então, o que está
acontecendo neste último período? O crescimento do desemprego que estamos vendo
neste último trimestre -- maio, junho e julho -- é, por um lado, ainda saldo
das medidas tomadas pelo ministro banqueiro Levy no primeiro ano do governo
Dilma. Esse trimestre já traz aumento desse desemprego porque as medidas
tomadas pelo também banqueiro [Henrique] Meirelles no governo Temer são medidas
destrutivas em relação ao crescimento de emprego e destrutivas em relação ao
trabalho.
Qual é o resultado? Nós
chegamos hoje a níveis oficiais de quase 12 milhões de desempregados, quando na
verdade nós temos níveis muito maiores. E no movimento da economia que nós
estamos hoje... Mesmo hoje, qual foi a medida do Banco Central? Manter os juros
altos. Juros altos, remuneração do sistema financeiro, recursos são drenados
para garantir o superávit primário, e o Estado perdeu aquela impulsão que dava
para o incentivo de novos empregos.
O que nós vimos hoje
(quarta-feira) no Senado é expressão disso. Criou-se um pretexto de depor um
governo pelo conjunto político da sua obra, por uma posição que não ganha as
eleições. Isso independe da avaliação que se faça do governo que cai. Eu, por
exemplo, sou muito crítico em relação ao governo que caiu, muito conciliador e
praticamente sem nenhuma ousadia para tentar mudanças mais profundas. Só que o
governo que ganha, que sai desse processo de impeachment, na verdade, ele é a
pura representação desses interesses dominantes. A tendência dele é aumentar a
repressão, como se viu em São Paulo [nas manifestações contra o governo de
Michel Temer na quarta-feira].
Nós vamos entrar numa época
de confrontação social, de manifestações sindicais e sociais, o que não depende
nem de longe de imaginar que o governo vai ter calma e tranquilidade. O período
que vai de 2016 a 2018 será uma sucessão amplificada e articulada de crises
sociais e crises políticas, porque esse governo não tem legitimidade.
O decisivo neste momento
seria que um processo de novas eleições fosse realizado, um plebiscito popular
decidiria se quer ou não novas eleições, e a partir disso nós tentarmos sair
desta crise. Um governo sem legitimidade não sinaliza saída da crise porque a
saída da crise tem elementos de profundidade que não são resolvidos no discurso
de Temer e seus ministros. A crise tem causas estruturais muito mais profundas.
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