Auditora do MTE diz que problema nas oficinas da Zara não é isolado
Responsável pela coordenação das fiscalizações que identificaram a existência de trabalho escravo na cadeia da produtiva da Zara, a auditora fiscal do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) de São Paulo Juliana Cassiano disse que a empresa possui sérias falhas no rastreamento de seus fornecedores. Em entrevista exclusiva ao Razão Social, concedida agora há pouco pelo telefone, a auditora ressaltou que os casos registrados na cidade de Americana e na capital de São Paulo não são isolados. De acordo com investigação do MTE, pelo menos 33 oficinas ligadas à Zara estariam na mesma situação na região. A empresa se tornou destaque nas mídias sociais hoje, após a ONG Repórter Brasil e o programa "A Liga", da TV Bandeirantes, tornarem públicas, ontem à noite, ações de fiscalização do MTE realizadas no mês passado em oficinas que fornecem roupas para a marca. Foram encontradas 16 pessoas em regime análogo à escravidão, além de cinco crianças que, embora não trabalhassem, moravam no mesmo local, em condições precárias.
O GLOBO: Em nota oficial divulgada hoje, a Zara agradeceu ao MTE, afirmando que não sabia da situação dos trabalhadores. Como a senhora avalia a posição da empresa?
JULIANA CASSIANO: Se nós conseguimos rastrear a cadeia deles, então a empresa também pode fazê-lo. E, se a companha rastreia a qualidade do produto o tempo todo, como não rastreia a mão de obra? Nas duas oficinas fiscalizadas na capital paulista mês passado, as condições eram muito precárias. E temos informação de que, no total, cerca de 33 oficinas estariam na mesma situação. Não é um caso isolado.
O GLOBO: Então trata-se de um problema na gestão da empresa em relação aos fornecedores...
JULIANA: Sim. É uma falha na gestão da cadeia produtiva. O primeiro flagrante foi em junho, na Rhode, que é a maior fornecedora de jeans da companhia. Naquele momento, não houve tanta repercussão, porque a Zara não era a única empresa que comprava da oficina. Mas já era um problema na cadeia, e era um grande fornecedor. Quando é assim, já identificamos que é um problema maior. E o MTE continua rastreando a empresa.
O GLOBO: A senhora esteve presente no momento da entrada nas oficinas, certo? Quais foram as principais irregularidades encontradas?
JULIANA: Eram muitas. A situação foi impactante até para nós, eu e o auditor Luis Alexandre, meu companheiro na coordenação das fiscalizações. As pessoas dividiam um espaço pequeno, com apenas um banheiro, muito sujo. Trabalhavam e moravam nas oficinas. E havia cinco crianças vivendo ali. Além disso, não havia água quente. A menor que foi encontrada, de 14 anos, não estudava e trabalhava como cozinheira e fazendo serviços gerais. Mais da metade das pessoas não tinha qualquer documento de identificação e entraram no país por meio de tráfico ilegal de seres humanos. Tudo para ganhar entre R$ 200 e R$ 300, o que os prendia por escravidão por dívida. A situação era muito, muito grave.
O GLOBO: Mas a Zara não é exceção, várias empresas do setor têxtil têm apresentado o mesmo problema. É uma falha da regulação do setor?
JULIANA: Certamente há uma falha no setor. A investigação que fizemos sobre a Zara faz parte do Pacto Contra Precarização e pelo Emprego e Trabalho Decente em São Paulo - Cadeia Produtiva das Confecções. O trabalho já tinha culminado no rastreamento da cadeia da Marisa, Collins e Pernambucanas, nas quais também achamos trabalho análogo à escravidão. Os estrangeiros são a principal mão de obra vulnerável, e eles são essenciais para o crescimento do setor. Esperamos que a gestão da Zara e de outras marcas do setor seja adequada às condições de trabalho decente.
A maior parte dos trabalhadores encontrados era de bolivianos, que entraram no país aliciados para trabalhar para as confecções. Eles são vítimas do tráfico ilegal de seres humanos e vêm atrás de um sonho de uma vida melhor. Acabam escravizados por dívidas, já que em seus salários são descontados aluguel, comida, entre outras despesas.
A Zara divulgou uma nota oficial em que agradece ao MTE pela identificação de mão de obra em sua cadeia produtiva.
fonte: http://oglobo.globo.com/blogs/razaosocial/#.TkwgHLC0V7Q.facebook

Comentários
Postar um comentário